Interview

25 September 2015 USA

EMPRESA RUSSA INVESTE NO MERCADO BRASILEIRO DE AÇO DE ALTA RESISTÊNCIA E MIRA O SETOR EÓLICO

Apostar no mercado brasileiro não vem sendo tarefa fácil para empresas estrangeiras do setor de siderurgia, que vive hoje um período de acentuada recessão no país. A busca por novos mercados de consumo e oportunidades de negócios, no entanto, ainda impulsiona a chegada de companhias como a NLMK, fabricante russa de aços de alta resistência que busca se consolidar em diversos setores da economia, atendendo a demandas que variam da mineração à geração de energia. Em tempos de crise para a commodity, a empresa planeja vencer as dificuldades financeiras por meio de projetos variados e da substituição do aço comum pelo aço de alto valor agregado. O produto corresponde apenas a 2% da produção total de aço no Brasil, o que permite um amplo campo para crescimento no mercado, de acordo com o gerente de vendas da NLMK, Redelvim Andrade. A companhia, que também vem expandindo suas operações no Peru, planeja se firmar no setor eólico brasileiro para o fornecimento de torres de geradores. De acordo com o executivo, a empresa já está envolvida com grandes players dessa indústria e estuda hoje as exigências da política de financiamentos do segmento. Apesar do momento ruim, as expectativas não são pequenas: para os próximos três anos, a companhia pretende triplicar seu faturamento no país. “A substituição do aço comum pelo aço de valor agregado nos alinha com o mercado. Hoje nós vivemos um período de sobreoferta, mas isso não vai tirar o fôlego da NLMK”.

Quais são hoje os principais projetos da NLMK no Brasil?

Nosso escritório no Brasil, que vai atuar como centro comercial e distributivo, concentra investimentos nas áreas de armazenagem, logística e outros serviços com foco em eficiência. São projetos de médio a longo prazo, basicamente em logística de distribuição e pessoal. Nossos produtos vêm de fora, não fazemos fabricação aqui. Hoje atendemos a demandas de setores como o de mineração, transportes, agricultura e elevação de cargas.

Como avalia as perspectivas de negócio no mercado brasileiro?

O mercado caiu bastante, mas ainda estamos em início de operação. Sempre se começa com pequeno porte, apresentando produtos. Nós trabalhamos com aço de alto valor agregado, então variamos de acordo com as demandas por aços especiais; a substituição do aço comum pelo aço agregado nos alinha com o mercado. Hoje, nós vivemos um período de sobreoferta, mas isso não vai tirar o fôlego da NLMK.

Como a empresa vê a proposta de aumento na alíquota sobre o aço importado?

Nós enxergamos isso como uma tentativa de proteção do mercado nacional em meio à crise, o que é relativamente comum. A nossa empresa é eficiente, temos capacidade de atender com custos e pagamos impostos caros para entrar no Brasil, então vamos trabalhar e não vamos sair. O governo só precisa tomar cuidado para que o aumento da alíquota não leve a um aumento da inflação. Sendo o caso, os produtores nacionais terão espaço para reajustar preços.

A empresa vem atuando no setor eólico?

Nós temos estudado o mercado e já estamos envolvidos com os maiores fabricantes para fornecimento de aço especialmente para a fabricação de torres de geradores. Esse é o nosso maior objetivo. Temos uma usina na Dinamarca, específica para a produção de grandes chapas laminadas. Nós fornecemos na Europa, nos Estados Unidos e estamos chegando devagar ao Brasil, ainda buscando entender como são as políticas nacionais de fabricação.

São quantas unidades voltadas a esse setor?

O grupo funciona basicamente com seis unidades de laminação na Europa e três nos Estados Unidos, além de uma direcionada à metalurgia primária na Rússia. O mercado de energia é, sem dúvidas, um ponto forte para nós.

A empresa busca atuar no setor brasileiro de óleo e gás?

Por enquanto não. Temos três usinas, na Itália, Bélgica e Dinamarca, onde fabricamos materiais de alta resistência e chapa grossa para os setores naval e eólico. Mas no Brasil ainda estamos começando com as unidades de laminação e metalurgia.

A NLMK avalia construir unidade no Nordeste para atender ao mercado eólico?

Ainda é cedo para falar. O maior potencial do setor está no Nordeste e no Rio Grande do Sul, mas os grandes projetos e leilões acontecem nos centros do Sudeste. As decisões estão em São Paulo, assim como os próprios fabricantes, então não consideramos abrir agora.

A companhia já fechou contratos de atuação na área?

Ainda não fechamos projetos, estamos apenas prospectando. As regras desse segmento para fornecimento são complexas. Basicamente, é preciso passar por financiamento, então entram as regras do BNDES e estamos aprendendo como funciona para entrarmos com nossos produtos vindos da Dinamarca.

Há um plano de investimento traçado para o próximo ano?

A nossa primeira meta em 2016 é aumentar nossa presença no Brasil, e a segunda é abrir operação no Peru. Temos um plano de sete anos para iniciar operações em toda a América do Sul. Então nosso planejamento é aumentar o portfólio de produtos no próximo ano para alcançar mais clientes.

O projeto no Peru já está firmado?

Já está definido. O processo de contratações e demais questões serão realizadas ao longo de 2016.

Como a empresa planeja ampliar seu faturamento no Brasil?

Temos metas para triplicar nosso faturamento nos próximos três anos. Sempre trabalharemos com aço de alto valor agregado, porque competir com commodity é igual brigar na praça. E vamos ampliar a gama de produtos trazidos ao Brasil. Além disso, hoje temos a capacidade de oferecer um suporte para substituir aço comum pelo de alto valor agregado. Isso é bom para as empresas, que têm diminuição no peso das cargas e melhora em equipamentos.

A NLMK tem encontrado espaço para atuar nesse nicho?

Sim, porque quanto mais valor agregado tiver um produto, mais ele foge da concorrência artificial. Não é fácil. A Alemanha utiliza 7% de aço de alta resistência no total de seu mercado; no Brasil, embora não tenhamos uma conta muito apurada, a estimativa é de que esse valor seja de 2%. Isso dá uma ideia do quanto podemos evoluir em termos da utilização de aço, porque há muito espaço para substituir.

Como o senhor avalia o atual momento da indústria brasileira?

Desde que me entendo como profissional, esta é a crise mais grave já enfrentada pela indústria brasileira. O setor de aço é primário na cadeia, e vejo alguns clientes terem quedas de produção entre 40% e 70%. Não temos tantos fatores econômicos que causem isso; é um problema agravado pela crise política. Mas o Brasil é uma das principais potências para se desenvolver a médio e longo prazo, e estou em linha com isso.

Há perspectiva de retomada?

O crédito hoje está muito escasso. Para falar em retomada, precisamos falar em obras, e o empresário tem que estar confiante que as regras são claras. Os investimentos estão parados por falta de confiança, na minha visão. Creio que, se tivermos uma luz nessa questão política, a retomada pode acontecer razoavelmente rápida.

Uma questão positiva é que as máquinas da indústria brasileira estão muito desgastadas, e em 2014 não foram feitas muitas reformas. Vemos uma possibilidade de que – havendo crédito – essa necessidade de renovar as frotas movimente demandas, o que pode aquecer a economia.